A Comic Con Experience e os Reflexos da Crise Editorial

via A Comic Con Experience e os Reflexos da Crise Editorial

A CCXP é, sem nenhuma dúvida, a maior celebração dos nerds do planeta. Tem espaço para todo mundo e, para os artistas que têm a honra de participar dela, é o evento de quadrinhos mais lucrativo do ano. O Artists Alley, este ano, alcançou o recorde de mesas, com mais de 500 artistas divulgando e vendendo os seus trabalhos. Por outro lado, outra grande falta foi sentida: a de sebos, livrarias e editoras. Um evento deste porte, certamente é um reflexo da realidade do consumo do público nerd brasileiro. A ascensão do espaço independente e a diminuição do espaço mainstream seriam reflexos do nosso momento de consumo de produtos editoriais voltados ao público nerd? Vamos analisar essas possibilidades a partir da Comic Con Experience.

Preciso reiterar que este post não é uma crítica ao evento da Comic Con Experience, nem às editoras em geral, mas uma forma de analisar o enxugamento do mercado editorial no Brasil. Também busca entender os pontos de ascensão e de recolhimento do mesmo a partir da oferta e procura deste tipo de material no maior evento dedicado à cultura pop no mundo. Quero, também, apontar cases de determinadas editoras e entender como essa reviravolta na forma do brasileiro consumir produtos editoriais envolve sua percepção dentro do maior evento nerd do mundo.

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Quando falo que a Comic Con Experience é o maior evento nerd e de cultura pop do mundo, eu não estou apenas “achando”. A edição de 2018 acolheu mais 262 mil pessoas dentro do cada vez mais ampliado pavilhão do São Paulo Expo. De acordo com o site Brainstorm 9, a média de gastos por pessoa no evento foi de 300 reais. É um evento que, apesar, do ranço do mundo nerd machista, trouxe 45% do seu público de mulheres. Além disso, se verificou que esse é o público nerd que vem se fortalecendo mais entre meninas menores de 25 anos, enquanto os homens são maioria do público de mais idade. Será que o futuro da cultura pop está nas mãos das mulheres? Acredito cada vez mais que sim.

O faturamento das marcas chegou a mais de 50 milhões de reais, com 103 marcas se divulgando dentro do evento. Destas, 5 eram patrocinadoras e 8 eram apoiadoras. As lives do OmeleTV alcançaram mais de 100 milhões de pessoas. também é interessante destacar que a metade do público da Comic Con Experience de 2018 vem do estado de São Paulo e o restante do resto do país.

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O público do evento vem num crescendo ininterrupto, de 97 mil pessoas, em sua estréia em 2014, esse número praticamente triplicou na edição deste ano. Mais de 1500 quadrinistas e ilustradores passaram pelo evento, inclusive este que redige este texto e, com certeza, essa experiência marcou a todos, assim como o seu público. Afinal, quando éramos todos crianças, essa cultura era marginal, era errada, era vista com maus olhos. Hoje, os nerds dominam o mundo. Todos somos muito gratos e felizes pela Comic Con Experience fazer a cabeça de proa desse movimento, principalmente no Brasil, mas já se espraiando para o mundo todo.

Mas existem coisas que nem o mais aficionado e apaixonado dos nerds consegue controlar, que são os ciclos econômicos. Eles vão e vêm e com eles carregam junto empresas, lojas, negócios e, é claro, vidas. Por mais que o público de um evento grandioso deste consuma e consuma muito, o seu comportamento tem mudado. A ampliação do Artists Alley da Comic Con é uma prova disso. Haviam pouco mais de uma centena de quadrinistas no que chamamos de “coração pulsante” do evento na edição de 2014. Em 2018, mais da metade de um milhar. Um país enorme como o Brasil e criativo como sabemos que somos, só poderia empregar uma força artística enorme também. As produções são as mais diversas. Desde os famigerados super-heróis, a terror, quadrinhos políticos, de gênero, infantis, mangás brasileiros, autobiográficos, eróticos, policiais, jornalísticos, documentais, experimentais. Existe de tudo.

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Essa criatividade dos artistas brasileiros, contudo, não tem feito nenhum respingo no mercado editorial mainstream. O mercado é capitaneado pela Panini Comics, a monopolizadora de títulos como Turma da Mônica, DC Comics, Marvel Comics, Star Wars, Cartoon Network, Nickelodeon, inúmeros títulos de mangás populares, The Walking Dead e, quem sabe, em breve os quadrinhos Disney. A editora tem investido pouquíssimo na produção nacional fora alguns casos de destaque e a lucrativa produção de Maurício de Sousa que, em dezembro fez um encontro inédito com os super-heróis da DC Comics.

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Editoras pequenas tentam lançar quadrinhos fora do eixo da Panini Comics, mas não são capazes de fazer páreo a ela. Caso semelhante às vendas desses mesmos materiais liderada pelo consumo online através do site da Amazon que oferece preços de impossível competição para outros sites, quiçá livrarias menores. O Publish News trouxe uma matéria dizendo que o Brasil perdeu mais 21 mil livrarias nos últimos 10 anos. Reflexos não só da crise econômica e editorial num todo, mas de uma política tributária que favorece o consumo e o grande empresariado. Segundo o site:

“O levantamento da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviço e Turismo) aponta ainda que, embora hoje a crise das duas maiores redes de livrarias do país (Saraiva e Cultura) esteja debaixo dos holofotes, foram as pequenas livrarias que mais sofreram nos últimos dez anos. Das 21.083 lojas fechadas, 20.912 eram empresas com até nove empregados. Uma consequência disso foi a diminuição dos postos de trabalhos do setor. O estudo mostra que entre 2016 e 2017, o setor perdeu quase 1,2 mil empregos formais”.

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Todos esses reflexos são bem visíveis quando observamos o número de stands de empresas que vendem materiais editoriais na Comic Con Experience, que pode servir de case não apenas para a crise econômica, a crise editorial, mas para a crise econômica e editorial dentro do nicho de produtos para amantes da cultura pop. Se por um lado este é um dos eventos que mais cresce em faturamento e público a cada ano, o mesmo não pode ser dito do setor editorial, que, conforme colhemos dados dos stands no evento, vem encolhendo desde o ano passado.

Em 2014, na estreia da CCXP, o evento comportava apenas sete editoras de material editorial de cultura pop, sendo uma delas a loja Comix, a maior loja de quadrinhos do Brasil, que também representava a Editora Criativo. Em 2015, esse número praticamente triplicou, com 19 stands dedicados a material editorial, sendo alguns deles, dedicados à comercialização de material usado. Em 2016 o evento atingiu seu maior número em stands deste segmento, com 25 stands. Ano passado, 2017, o número já encolheu, praticamente retornando aos 19 stands de 2015. Este ano, com os pedidos de recuperação judicial da Abril e os inúmeros problemas de distribuição, somente 10 estandes comercializando material editorial compareceram ao evento.

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A grande ausência nos stands sentida foi a da Comix, que era uma das “âncoras” do Artist Alley. É sabido que a loja está enfrentando uma das piores crises de sua existência, tendo parado de receber produtos da Panini Comics por muito tempo, assim como está acontecendo com as Livrarias Cultura, enquanto não paga a sua dívida em milhões de reais com a editora com base na Itália. Por outro lado – e por outro lado mesmo, no caso do Artist Alley – estande da Panini Comics estava maior do que nunca, sempre lotado e se tornando uma das poucas opções de compra de quadrinhos mainstream do evento. Essa compra é importante, uma vez que esses quadrinhos são produzidos por importantes convidados do evento: os desenhistas, coloristas, roteiristas e arte-finalistas internacionais.

Outras opções de compras de quadrinhos eram as luxuosas Salvat e Eaglemoss com suas edições famosas por conterem erros crassos de edição e revisão. Se em anos anteriores os descontos destas editoras eram praticamente irrisórios, neste ano de 2018, elas vieram com tudo com descontos de quase metade do valor de suas coleções. Também pudera: com a crise da distribuição, monopolizada pela Total, do grupo Abril, as duas ficaram sem levar seus quadrinhos pelos quatro cantos do país por quase um semestre inteiro. De alguma forma precisavam retornar esse prejuízo. A solução: descontos na CCXP.

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Um caso estranho foi a Editora Rocco. Estreante na Comic Con Experience, não praticou descontos em quase nenhum dos seus livros, exceto na linha Harry Potter. Leve-se em consideração que existe na Comic Con Experience, todos estes anos, um estande enorme e concorridíssimo de produtos para os potterheads. Mas, até 2018, nenhum para seus livros ou sua editora no Brasil. Por outro lado, a Editora Aleph trazia rebaixas em todo seu catálogo – lotado de títulos clássicos e vanguardistas de ficção científica -, com combos de livros e pôsteres de brinde.

A JBC, assim como a Panini, é um dos bastiões dos quadrinhos na CCXP, – representando sua variação oriental, os mangás – mas ainda assim a Panini é uma forte concorrente da editora nipo-brasileira. A Panini Comcs, além de publicar mangás, traz toda uma gama de outros quadrinhos, como citamos anteriormente. Contudo, não publica nenhum título brasileiro à exceção de Mauricio de Sousa. Ao mesmo tempo o gigante stand da poderosa editora com base na Itália faz vizinhança com um Beco dos Artistas de mais de 530 autores. Irônico e sarcástico de certa forma.

No rol de editoras que deixaram a CCXP por questões de falência ou reestruturação dos negócios estão a Devir, a LEYA e a Abril. Também foi de se estranhar a ausência da Editora Intrínseca, que no ano passado realizou uma massiva campanha para o livro A Ordem Vermelha, de Felipe Castilho, que tem sido um dos mais vendidos no ramo. Outra editora que está associada ao Omelete e possui curadoria de seus editores, a Novo Século e seu selo Geektopia também estavam ausentes do evento. A editora, inclusive, só participou da edição de 2016 do evento.

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Ainda assim, vemos ou outro movimento dentro da comercialização de material editorial dentro do evento da Comic Con Experience. A migração das editoras pequenas e independentes para dentro da Artist Alley, ainda que de forma não-oficial. A AVEC, estava presente com seus títulos nas mesas dos artistas gaúchos. A Draco, a MINO e a Marsupial se deslocaram para as mesas de seus editores, que também são artistas. A própria Comix estava estabelecida na mesa dupla de Danilo Beyruth – de forma não-oficial, claro.

Muitas outras editoras independentes de material autoral ainda menores também realizaram o mesmo movimento. A única editora pequena, resistente, e presente desde o segundo ano da CCXP foi a Crás, do incansável e produtivo Thiago Spyked. Essas alterações não-oficiais e contra-establishment entram em choque com uma prática da CCXP que não imita os eventos gringos, onde editoras independentes têm direito a mesas – ainda que um pouco maiores e mais onerosas – dentro do Beco dos Artistas.

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Se por um lado esta prática vai contra as regras, mas as torna viáveis, ela também tem a chance de prejudicar e/ou auxiliar os artistas, ditos, puramente independentes, sem editoras. Apenas números concretos de vendas poderiam dizer. Ao mesmo tempo, no Artists Alley, os pequenos brasileiros “competem” com grandes estrangeiros cujas filas quilométricas podem fazer sombra às suas humildes mesinhas, impedindo o acesso e visualização dos quadrinhos pelos transeuntes. São facas de dois gumes.

Mas se os artistas badalados brasileiros e internacionais podem criar aglomerações em suas mesas, por que não permitir o mesmo para editoras independentes? O quanto  e como este tipo de “competição” pode ser benéfica para todos? Tudo leva a crer que a transformação de pequenas editoras em mesas de artistas na CCXP está se tornando um movimento natural, ainda que não-oficial do cenário – reclamarão comigo se eu disser mercado – de quadrinhos brasileiros.

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A crise econômica e editorial faz com que editoras independentes encontrem meios de escape fora do mercado convencional – mesmo do e-commerce, que é obliterado pela Amazon. Eventos, como a Comic Con Experience são uma oportunidade destas editoras encontrarem um público cativo – cativo mesmo, pois estão todos num só lugar – e potencial. É cada vez mais comum vermos diversas editoras menores fazendo torratorra de vendas em eventos como o Garage Sale da Mythos Editora. Ou ainda feiras como a que a Editora MINO promove que, inclusive, investiu forte no seu estande no Festival Internacional de Quadrinhos, o FIQ. Ou o Festival Guia dos Quadrinhos que tem despontado como alternativa para materiais usados e também como substituto da finada FestComix.

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Percebemos, então, levando em conta todos estes motivos que elenquei acima, que o abismo entre editoras mainstream e independentes – assim como outros abismos sociais e econômicos – nunca estiveram tão alargados e profundos como agora, desde o alastramento das editoras independentes de HQs. A Panini Comics continua reinando suprema em lojas, bancas, eventos, e a Amazon continua dominando o e-commerce com práticas tubarônicas e predatórias nunca vistas antes na história deste país.

Aquelas práticas comerciais e editoriais que giram nas órbitas da Panini e navegam as margens da Amazon, incluindo livrarias, comic shops, sebos precisam “se virar nos 30” para fazer florescer um cenário cada vez mais dependente de eventos como a CCXP, de larga escala de visibilidade e público. Então, nesta conjuntura, o Artists Alley da Comic Con Experience cumpre um papel crucial para o futuro do “cenário” dos quadrinhos feitos nos Brasil por brasileiros. Por isso, longa vida aos Artists Alley de todos os eventos. Longa vida à Comic Con Experience que acolhe esses artistas no seu “coração pulsante”.

 

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Guia de Leitura dos Encadernados dos X-Men

Splash Pages

A Panini Comics tem lançado mais encadernados dos X-Men, a exemplo da saga Inferno. Mas alguém se importou em fazer um Guia de Leitura para você, como é feito com a série Hellblazer do selo Vertigo. Não, claro que não. A Panini Comics historicamente maltrata os X-Men. Muitos amigos têm me pedido um guia para saber como ler esses encadernados na ordem. Bem, então atendendo a esses pedidos, preparei aqui esta enorme lista de encadernados. Afivelem seu cinto no Pássaro Negro e se preparem para a decolagem!

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