Entrevista 2011 x 2019

Entrevista ao Clube da Leitura durante a 2ª Feira da Leitura Infanto Juvenil no Shopping Barra Sul – Porto Alegre (24/07/2011)   

ATUALIZADAS com algumas observações em 2019.

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2011 – Clube da Leitura: Julius, você está lançando o livro “GUERRA 1939-1945”, o que há nele de diferente de todas as outras publicações sobre o tema?

Julius: O livro, o álbum, a HQ ou o livro ilustrado, como pode ser enquadrado esse trabalho, trata a II Guerra Mundial sem retratar heróis ou vilões, o elemento central das histórias é o elemento humano. O texto mostra os fatos do que acontecia em cada ano de guerra e a parte visual, os desenhos, colagens, fotos… fazem da narrativa uma reflexão sobre o período conturbado da nossa história recente. 

2011 – Clube da Leitura: Como você escolheu o tema, por que guerra?

Julius: Quando eu tinha 14 anos escrevi e ilustrei uma pequena história de 8 páginas sobre um bombardeio inglês voltando de uma missão e sendo atacado pelos inimigos. Algumas décadas depois encontrei essas páginas e me perguntei sobre o que estaria acontecendo naquele período da história. Comecei uma “pequena” pesquisa que ainda não terminou e que agora (parte dela) está nesse álbum de 136 páginas.

2011 – Clube da Leitura: Quanto tempo demorou para terminar o livro?

Julius: Entre pesquisa, roteiro, composição, arte… foram 5 anos aproximadamente, e paralelamente estou trabalhando no próximo sobre a Primeira Grande Guerra.

2019 – (…) Comecei uma “pequena” pesquisa que… levou 10 anos pra terminar e resultou na publicação de 4 álbuns: “GUERRA 1939-1945” (Conrad 2011 / Edições Independentes 2016, 2017 e 2018), “GUERRA 1914-1918” (Quadro a Quadro 2014 / Edições Independentes 2016, 2017 e 2018), “Dossiê de GUERRA: Genocídio Armênio” (Independente 2017) e “Dossiê de GUERRA: Barão Vermelho” (Independente 2018).

2011 – Clube da Leitura: Sobre a I Guerra Mundial?

Julius: Sim, será meu próximo lançamento. Tiramos da ordem cronológica (lançar um álbum sobre a II Guerra antes da Primeira Grande Guerra) por conta das dificuldades nas pesquisas sobre o período do início do Séc XX, os dados são mais escassos, daí me enrolei mais pra terminar.

2011 – Clube da Leitura: Sobre a arte, em uma olhada rápida observa-se que parece ser bem pesado o traço, escuro, e você também usa muita referência fotográfica, como foi compor a arte do livro?

Julius: A arte tem muito ‘experimentalismo’. Usei e abusei das referências fotográficas, colagens, desenhos e etc. De certa forma trato de um exercício de imaginação sobre as histórias por trás desses registros, por trás das fotos, por trás das imagens de dor retratas ali. Queria dar o ‘clima pesado’ em que o mundo estava mergulhado no período de guerra e também queria a realidade no retrato do conflito. Desenhei e reproduzi fotos sobre mesa de luz, algumas delas famosas retratando a guerra, também usei filtros no Photoshop para compor uma narrativa visual mais uniforme mesclando traço e fotografias que combinassem com cada uma das “crônicas desenhadas”. Os desenhos cobrem as lacunas das fotos e você vê tudo como um só na história. 

2019 – … se tivesse feito mais um quadrinho igual aos que todos faziam, seria apenas mais um entre tantos tentando ser publicado, eu queria uma forma diferente de tudo que já havia sido visto, tanto na abordagem do tema (muitas e variadas publicações) quanto na apresentação da arte e as resenhas que obtive com o trabalho falam por si:

“GUERRA 1939-1945 é uma introdução excelente para quem quer saber mais acerca do assunto. Uma HQ que deveria estar presente nas bibliotecas de todas as escolas do país.” Pipoca e Nanquim – Quadrinhos e Cinema

“Julius em ‘GUERRA 1939-1945’ vira de cabeça pra baixo o conceito de HQ. É história em quadrinho ou é livro ilustrado? É HQ ou crônica realisticamente apresentada? Esse diferencial o qualifica e abre espaço pros quadrinhos nacionais (inéditos) não cômicos dos cartuns e das tirinhas de jornal.” Arthur Maciel Rios – Cartunista

“O traço em alto contraste de Julius humaniza os dramas dos soldados que lutaram e morreram, não importando o lado, durante a II Guerra Mundial… acerta ao tornar semelhantes os dramas de todos os envolvidos na guerra. Não há espaço para heróis, apenas para vítimas, sejam eles russos, franceses, alemães ou japoneses…” Dellano Rios – Diário do Nordeste

“‘GUERRA 1939-1945’ é uma graphic novel ambiciosa… que impressiona pelo olhar crítico de como seu traço grosso de nanquim vê as dolorosas cenas da guerra. Uma narrativa poética, assombrosa onde somos transportados para a mente de soldados e civis na guerra.” Ernesto Barros – Jornal do Comercio Recife

“A vontade didática de informação de ‘GUERRA 1939-1945’ se funde com a inovação mostrada em sete capítulos de prosa histórico-literária mesclada com poesia subjetiva, nutrida a fundo em um arsenal histórico e filosófico consistente. O branco da bomba atômica e o negro do campo de concentração mostram a obsessão pelo realismo de seu traço.” Pedro Maciel Guimarães – Folha de São Paulo

“Não são histórias de guerra, são poesias gráficas sobre o ser humano, seus valores, sua beleza e o tamanho de sua crueldade. Julius conseguiu com isso produzir um gibi belíssimo sobre a maior tragédia da história da humanidade, de forma séria, didática e – principalmente – estética e artisticamente impecável.” Lillo Parra – Quadro a Quadro

“A HQ ‘GUERRA 1939-1945’ de Julius parece incorporar essa sensação de caos, com arte mais ou menos impressionistas, que não oferecem uma apreensão imediata do que acontece no quadro. É preciso investigar a página em busca de sentido, se afastar para perceber nuances, um tipo de exercício para o olhar, recompensado com uma representação forte do sufoco da guerra.” Hugo Viana – Folha de Pernambuco

2011 – Clube da Leitura: Pode dar um exemplo dessa mescla de traço claro e escuro texto e imagens?

Julius: Sim, a escuridão de um campo de concentração se contrapõe ao branco da explosão nuclear em Hiroshima. A parte textual trata dos fatos e a parte ilustrada/quadrinhos/colagens trata da reflexão sobre a guerra. Assim, fica atraente pra quem gosta de literatura e pra quem curte ilustração e quadrinhos. 

2011 – Clube da Leitura: História em Quadrinhos ou Livro Ilustrado?

Julius: Você decide! (risos) Bom, acho que o tempo dirá, não me preocupo muito com rótulos ou algum padrão. A ideia era fazer algo diferente do que já foi publicado, há muita coisa em livrarias e bancas de revistas que tratam da guerra. Acho que consegui apresentar o tema de forma diferente, bem didático aliando texto e imagens, há uma narrativa visual de histórias em quadrinhos, mas se você achar que também pode ser um livro ilustrado, eu aceito. O “GUERRA 1939-1945” está sendo vendido em bancas de revistas no país inteiro e também em livrarias, essa ‘entrada’ em pontos tão distintos de venda só mostra a versatilidade em que apresentei o tema.

2019 – … em 8 anos ainda há dificuldade em definir se é HQ ou se um livro ilustrado, então, depois de 4 edições publicadas de cada álbum principal, consegui realmente fugir dos rótulos tanto de um quanto de outro.

2011 – Clube da Leitura: Para qual público de destina o GUERRA?

Julius: Espero que agrade a todas as idades, já há algum tempo as HQs não são mais vistas apenas como coisa de criança, até a “Turma da Mônica” cresceu com seu público (Turma da Mônica Jovem), então, acredito que meu trabalho tem um amplo apelo junto ao público interessado pelo tema ou curioso sobre esse período histórico. No final do livro há a bibliografia de onde partiu a pesquisa e pode ser uma iniciação para aqueles que querem se aprofundar mais sobre o tema.

2019 – … em 2014, durante o lançamento do “GUERRA 1914-1918” na Bienal do Livro de Minas Gerais, me surpreendi com uma menina, talvez 15 ou 16 anos, que adquiriu o livro para presentear a professora de história (“que ela amava”) e autografei já no nome da “fessora”. Quando voltei a Belo Horizonte para o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) de 2015 conheci a professora ‘presenteada’ pelo livro. Gostou tanto que comprou vários exemplares para também presentear seus colegas do departamento de história da universidade em que lecionava. Na Bienal do Livro de SP 2016, um garoto de 10 anos comprou um exemplar para dar de presente para o pai, entusiasta do tema, e pagou o valor do livro “em moedinhas”… pessoas compram pelo tema, pela arte ‘estranha’, pela reflexão sobre a guerra, pela bibliografia. Um público tão amplo que me permite participar dos mais variados eventos de literatura e quadrinhos em geral.

2011 – Falando em mercado de literatura e quadrinhos como você vê o cenário atual no Brasil?

Julius: Sobre esse “mercado” eu ainda sei muito pouco, estou começando a tomar conhecimento, sou um autor publicado por editora e vejo com bons olhos essa entrada dos ‘comics’ nas livrarias e os quadrinhos “de luxo” e livros indo para as bancas de revistas, são novas prateleiras de exposição, novas formas das publicações chegarem às pessoas, creio que o público de banca e de livrarias são distintos, então realmente aumenta a exposição. Há também os planos governamentais para compra de livros e HQs e as editoras estão investindo pesado nas adaptações literárias para quadrinhos em busca desse aporte de verbas dos editais de cultura. Não acho que seja uma boa alguns dependerem só de projetos culturais para sobreviver, mas é que temos para hoje.

2019 – como autor independente vejo muito do dito “glamour”, que muitos podem ter ouvido falar do mercado livreiro, nunca foi real. Creio que a caracterização de “mercado” só vale para as grandes empresas do ramo, detentoras de ‘best sellers’ com tiragens maiores (que não chegam perto das tiragens de 2 ou 3 décadas atrás), ou que publicam grandes marcas, Marvel, DC, Turma da Mônica, séries de mangás… só pra citar alguns. As livrarias e a bancas de revistas estão quebradas, a distribuição sumiu, as comic shops sobrevivem pelo amor dos seus clientes e oferecendo eventos e debates, mesas redondas sobre HQs, lançamentos ou outras atividades nos seus espaços para atrair público. De outro lado, a Amazon ‘vai bem, obrigado’, joga com sua sombra de possível monopólio e extrema competência em venda via web e entrega em todo o país, comprando tiragens ou boa parte delas das editoras desesperadas, credoras das livrarias quebradas pela péssima administração dos últimos anos de soberba sobre seus estoques de livros consignados. Os autores independentes que não recorrem aos meios de financiamento coletivo de suas obras, agora são dependentes de eventos para expor seus trabalhos e precisam ‘cair na estrada’, viajar muito e carregar muitas caixas de livros e quadrinhos pelo caminho para conseguir sobreviver. Mais dependentes, impossível!

2011 – Dá pra viver só da venda dos livros?

Julius: Acredito que não.

2019 – … como autor independente (de editoras), talvez… se você puder ser capaz de “assoviar, pintar, bordar e chupar cana” ao mesmo tempo na parte administrativa do negócio, produzir com qualidade e conseguir se vender, apresentar para as pessoas seu trabalho, estar no máximo de eventos de quadrinhos e literatura possíveis, talvez consiga viver disso e com alguma sorte no meio desse “one man band”, para o bem do seu ego no final, não seja visto apenas como um vendedor. Eu me descobri também ‘vendedor’ por um mero acaso, trabalhando na promoção dos meus livros nos eventos, observando outros autores, testando abordagens, posturas e etc… vesti um personagem que achei ideal para estar nos eventos promovendo meu trabalho e fui pra guerra.

 2011 – Clube da Leitura: Qual a mensagem que o GUERRA deixa pros leitores?

Julius: O “GUERRA 1939-1945” não trata de heróis ou vilões, trata do elemento humano dentro do cenário caótico da guerra. Não há “eu acho que foi assim…” há referências históricas, bibliografia, texto e arte referenciadas… e a característica fundamental deste trabalho é que a guerra não pode ser esquecida, porque quem esquece faz de novo!

2019 – … e a característica fundamental do meu trabalho continua sendo que a guerra não pode ser esquecida, porque quem esquece faz de novo!

 

 

GUERRA 1939-1945 / 1ª Edição 2011, 4ª Edição 2018

GUERRA 1914-1918 / 1ª Edição 2014, 4ª Edição 2018

Dossiê de GUERRA: Genocídio Armênio / 1ª Edição 2017

Dossiê de GUERRA: Barão Vermelho / 1ª Edição 2018

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Das antigas…

Clube da Leitura – julho 2011

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Entrevista ao Clube da Leitura durante a 2a Feira da Leitura Infanto Juvenil no Shopping Barra Sul – Porto Alegre (24/07/2011)

Clube da Leitura: Julius, você está lançando o livro “GUERRA 1939-1945”, o que há nele de diferente de todas as outras publicações sobre o tema?

Julius: O livro, o álbum, a HQ ou o livro ilustrado, como pode ser enquadrado este trabalho, trata a II Guerra Mundial sem retratar heróis ou vilões, o elemento central das histórias é o elemento humano. O texto mostra os fatos do que acontecia em cada ano de guerra e a parte visual, os desenhos, colagens, fotos.. fazem da narrativa uma reflexão sobre o período conturbado da nossa história recente. 

Clube da Leitura: Como você escolheu o tema, por que guerra?

Julius: Quando eu tinha 14 anos escrevi e ilustrei uma pequena história de 8 páginas sobre um bombardeio inglês voltando de uma missão e sendo atacado pelos inimigos. Algumas décadas depois encontrei essa história e me perguntei sobre o que estaria acontecendo naquele período da história. Comecei uma “pequena” pesquisa que ainda não terminou e que agora (parte dela) está neste álbum de 136 páginas.

Clube da Leitura: Quanto tempo demorou para terminar o livro?

Julius: Entre pesquisa, roteiro, composição, arte… foram 5 anos aproximadamente, e paralelamente estou trabalhando no próximo sobre a Primeira Grande Guerra.

Clube da Leitura: Sobre a I Guerra Mundial?

Julius: Sim, será meu próximo lançamento. Tiramos da ordem cronológica (lançar um álbum sobre a II Guerra antes da Primeira Grande Guerra) por conta das dificuldades nas pesquisas sobre o período do início do Séc XX, os dados são mais escassos, daí me enrolei mais pra terminar.

Clube da Leitura: Sobre a arte, em uma olhada rápida observa-se que parece ser bem pesado o traço, escuro, e você também usa muita referência fotográfica, como foi compor a arte do livro?

Julius: A arte tem muito ‘experimentalismo’. Usei e abusei das referências fotográficas, colagens, desenhos e etc. De certa forma trato de um exercício de imaginação sobre as histórias por trás desses registros. Queria dar o ‘clima pesado’ em que o mundo estava mergulhado no período de guerra e também queria a realidade no retrato do conflito. Desenhei fotos sobre mesa de luz, algumas delas famosas retratando a guerra, também usei filtros no Photoshop para compor uma narrativa visual mais uniforme mesclando traço e fotografias que combinassem com cada uma das “crônicas desenhadas”. 

Clube da Leitura: Pode dar um exemplo?

Julius: Sim, a escuridão de um campo de concentração se contrapõe ao branco da explosão nuclear em Hiroshima. A parte textual trata dos fatos e a parte ilustrada/quadrinhos trata da reflexão sobre a guerra. 

Clube da Leitura: História em Quadrinhos ou Livro Ilustrado?

Julius: Você decide! (risos) Bom, acho que o tempo dirá, não me preocupo muito com rótulos ou algum padrão. A ideia era fazer algo diferente do já foi publicado, há muita coisa em livrarias e bancas de revistas que tratam da guerra. Acho que consegui apresentar o tema de forma diferente, bem didático aliando texto e imagens, há uma narrativa visual de histórias em quadrinhos, mas se você achar que também pode ser um livro ilustrado, eu aceito. O “GUERRA 1939-1945” está sendo vendido em bancas de revistas no país inteiro e também em livrarias, essa ‘entrada’ em pontos tão distintos de venda só mostra a versatilidade em que apresentei o tema.

Clube da Leitura: Para qual público de destina o GUERRA?

Julius: Espero que agrade a todas as idades, já há algum tempo as HQs não são mais vistas apenas como coisa de criança, até a “Turma da Mônica” cresceu (Turma da Mônica Jovem), então acredito que meu trabalho tem um amplo apelo junto ao público interessado pelo tema ou curioso sobre esse período histórico. No final do livro há a bibliografia de onde partiu a pesquisa e pode ser uma iniciação para aqueles que querem se aprofundar mais sobre o tema.

Clube da Leitura: Qual a mensagem que o GUERRA deixa pros leitores?

Julius: O “GUERRA 1939-1945” não trata de heróis ou vilões, trata do elemento humano dentro do cenário caótico da guerra. Não há “eu acho que foi assim…” há referências históricas, bibliografia, texto e arte referenciadas… e  a característica fundamental deste trabalho é que a guerra não pode ser esquecida, porque quem esquece faz de novo!

GUERRA 1939-1945
Conrad Editora
Formato: 21 x 27 cm
136 Páginas

A Comic Con Experience e os Reflexos da Crise Editorial

via A Comic Con Experience e os Reflexos da Crise Editorial

A CCXP é, sem nenhuma dúvida, a maior celebração dos nerds do planeta. Tem espaço para todo mundo e, para os artistas que têm a honra de participar dela, é o evento de quadrinhos mais lucrativo do ano. O Artists Alley, este ano, alcançou o recorde de mesas, com mais de 500 artistas divulgando e vendendo os seus trabalhos. Por outro lado, outra grande falta foi sentida: a de sebos, livrarias e editoras. Um evento deste porte, certamente é um reflexo da realidade do consumo do público nerd brasileiro. A ascensão do espaço independente e a diminuição do espaço mainstream seriam reflexos do nosso momento de consumo de produtos editoriais voltados ao público nerd? Vamos analisar essas possibilidades a partir da Comic Con Experience.

Preciso reiterar que este post não é uma crítica ao evento da Comic Con Experience, nem às editoras em geral, mas uma forma de analisar o enxugamento do mercado editorial no Brasil. Também busca entender os pontos de ascensão e de recolhimento do mesmo a partir da oferta e procura deste tipo de material no maior evento dedicado à cultura pop no mundo. Quero, também, apontar cases de determinadas editoras e entender como essa reviravolta na forma do brasileiro consumir produtos editoriais envolve sua percepção dentro do maior evento nerd do mundo.

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Quando falo que a Comic Con Experience é o maior evento nerd e de cultura pop do mundo, eu não estou apenas “achando”. A edição de 2018 acolheu mais 262 mil pessoas dentro do cada vez mais ampliado pavilhão do São Paulo Expo. De acordo com o site Brainstorm 9, a média de gastos por pessoa no evento foi de 300 reais. É um evento que, apesar, do ranço do mundo nerd machista, trouxe 45% do seu público de mulheres. Além disso, se verificou que esse é o público nerd que vem se fortalecendo mais entre meninas menores de 25 anos, enquanto os homens são maioria do público de mais idade. Será que o futuro da cultura pop está nas mãos das mulheres? Acredito cada vez mais que sim.

O faturamento das marcas chegou a mais de 50 milhões de reais, com 103 marcas se divulgando dentro do evento. Destas, 5 eram patrocinadoras e 8 eram apoiadoras. As lives do OmeleTV alcançaram mais de 100 milhões de pessoas. também é interessante destacar que a metade do público da Comic Con Experience de 2018 vem do estado de São Paulo e o restante do resto do país.

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O público do evento vem num crescendo ininterrupto, de 97 mil pessoas, em sua estréia em 2014, esse número praticamente triplicou na edição deste ano. Mais de 1500 quadrinistas e ilustradores passaram pelo evento, inclusive este que redige este texto e, com certeza, essa experiência marcou a todos, assim como o seu público. Afinal, quando éramos todos crianças, essa cultura era marginal, era errada, era vista com maus olhos. Hoje, os nerds dominam o mundo. Todos somos muito gratos e felizes pela Comic Con Experience fazer a cabeça de proa desse movimento, principalmente no Brasil, mas já se espraiando para o mundo todo.

Mas existem coisas que nem o mais aficionado e apaixonado dos nerds consegue controlar, que são os ciclos econômicos. Eles vão e vêm e com eles carregam junto empresas, lojas, negócios e, é claro, vidas. Por mais que o público de um evento grandioso deste consuma e consuma muito, o seu comportamento tem mudado. A ampliação do Artists Alley da Comic Con é uma prova disso. Haviam pouco mais de uma centena de quadrinistas no que chamamos de “coração pulsante” do evento na edição de 2014. Em 2018, mais da metade de um milhar. Um país enorme como o Brasil e criativo como sabemos que somos, só poderia empregar uma força artística enorme também. As produções são as mais diversas. Desde os famigerados super-heróis, a terror, quadrinhos políticos, de gênero, infantis, mangás brasileiros, autobiográficos, eróticos, policiais, jornalísticos, documentais, experimentais. Existe de tudo.

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Essa criatividade dos artistas brasileiros, contudo, não tem feito nenhum respingo no mercado editorial mainstream. O mercado é capitaneado pela Panini Comics, a monopolizadora de títulos como Turma da Mônica, DC Comics, Marvel Comics, Star Wars, Cartoon Network, Nickelodeon, inúmeros títulos de mangás populares, The Walking Dead e, quem sabe, em breve os quadrinhos Disney. A editora tem investido pouquíssimo na produção nacional fora alguns casos de destaque e a lucrativa produção de Maurício de Sousa que, em dezembro fez um encontro inédito com os super-heróis da DC Comics.

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Editoras pequenas tentam lançar quadrinhos fora do eixo da Panini Comics, mas não são capazes de fazer páreo a ela. Caso semelhante às vendas desses mesmos materiais liderada pelo consumo online através do site da Amazon que oferece preços de impossível competição para outros sites, quiçá livrarias menores. O Publish News trouxe uma matéria dizendo que o Brasil perdeu mais 21 mil livrarias nos últimos 10 anos. Reflexos não só da crise econômica e editorial num todo, mas de uma política tributária que favorece o consumo e o grande empresariado. Segundo o site:

“O levantamento da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviço e Turismo) aponta ainda que, embora hoje a crise das duas maiores redes de livrarias do país (Saraiva e Cultura) esteja debaixo dos holofotes, foram as pequenas livrarias que mais sofreram nos últimos dez anos. Das 21.083 lojas fechadas, 20.912 eram empresas com até nove empregados. Uma consequência disso foi a diminuição dos postos de trabalhos do setor. O estudo mostra que entre 2016 e 2017, o setor perdeu quase 1,2 mil empregos formais”.

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Todos esses reflexos são bem visíveis quando observamos o número de stands de empresas que vendem materiais editoriais na Comic Con Experience, que pode servir de case não apenas para a crise econômica, a crise editorial, mas para a crise econômica e editorial dentro do nicho de produtos para amantes da cultura pop. Se por um lado este é um dos eventos que mais cresce em faturamento e público a cada ano, o mesmo não pode ser dito do setor editorial, que, conforme colhemos dados dos stands no evento, vem encolhendo desde o ano passado.

Em 2014, na estreia da CCXP, o evento comportava apenas sete editoras de material editorial de cultura pop, sendo uma delas a loja Comix, a maior loja de quadrinhos do Brasil, que também representava a Editora Criativo. Em 2015, esse número praticamente triplicou, com 19 stands dedicados a material editorial, sendo alguns deles, dedicados à comercialização de material usado. Em 2016 o evento atingiu seu maior número em stands deste segmento, com 25 stands. Ano passado, 2017, o número já encolheu, praticamente retornando aos 19 stands de 2015. Este ano, com os pedidos de recuperação judicial da Abril e os inúmeros problemas de distribuição, somente 10 estandes comercializando material editorial compareceram ao evento.

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A grande ausência nos stands sentida foi a da Comix, que era uma das “âncoras” do Artist Alley. É sabido que a loja está enfrentando uma das piores crises de sua existência, tendo parado de receber produtos da Panini Comics por muito tempo, assim como está acontecendo com as Livrarias Cultura, enquanto não paga a sua dívida em milhões de reais com a editora com base na Itália. Por outro lado – e por outro lado mesmo, no caso do Artist Alley – estande da Panini Comics estava maior do que nunca, sempre lotado e se tornando uma das poucas opções de compra de quadrinhos mainstream do evento. Essa compra é importante, uma vez que esses quadrinhos são produzidos por importantes convidados do evento: os desenhistas, coloristas, roteiristas e arte-finalistas internacionais.

Outras opções de compras de quadrinhos eram as luxuosas Salvat e Eaglemoss com suas edições famosas por conterem erros crassos de edição e revisão. Se em anos anteriores os descontos destas editoras eram praticamente irrisórios, neste ano de 2018, elas vieram com tudo com descontos de quase metade do valor de suas coleções. Também pudera: com a crise da distribuição, monopolizada pela Total, do grupo Abril, as duas ficaram sem levar seus quadrinhos pelos quatro cantos do país por quase um semestre inteiro. De alguma forma precisavam retornar esse prejuízo. A solução: descontos na CCXP.

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Um caso estranho foi a Editora Rocco. Estreante na Comic Con Experience, não praticou descontos em quase nenhum dos seus livros, exceto na linha Harry Potter. Leve-se em consideração que existe na Comic Con Experience, todos estes anos, um estande enorme e concorridíssimo de produtos para os potterheads. Mas, até 2018, nenhum para seus livros ou sua editora no Brasil. Por outro lado, a Editora Aleph trazia rebaixas em todo seu catálogo – lotado de títulos clássicos e vanguardistas de ficção científica -, com combos de livros e pôsteres de brinde.

A JBC, assim como a Panini, é um dos bastiões dos quadrinhos na CCXP, – representando sua variação oriental, os mangás – mas ainda assim a Panini é uma forte concorrente da editora nipo-brasileira. A Panini Comcs, além de publicar mangás, traz toda uma gama de outros quadrinhos, como citamos anteriormente. Contudo, não publica nenhum título brasileiro à exceção de Mauricio de Sousa. Ao mesmo tempo o gigante stand da poderosa editora com base na Itália faz vizinhança com um Beco dos Artistas de mais de 530 autores. Irônico e sarcástico de certa forma.

No rol de editoras que deixaram a CCXP por questões de falência ou reestruturação dos negócios estão a Devir, a LEYA e a Abril. Também foi de se estranhar a ausência da Editora Intrínseca, que no ano passado realizou uma massiva campanha para o livro A Ordem Vermelha, de Felipe Castilho, que tem sido um dos mais vendidos no ramo. Outra editora que está associada ao Omelete e possui curadoria de seus editores, a Novo Século e seu selo Geektopia também estavam ausentes do evento. A editora, inclusive, só participou da edição de 2016 do evento.

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Ainda assim, vemos ou outro movimento dentro da comercialização de material editorial dentro do evento da Comic Con Experience. A migração das editoras pequenas e independentes para dentro da Artist Alley, ainda que de forma não-oficial. A AVEC, estava presente com seus títulos nas mesas dos artistas gaúchos. A Draco, a MINO e a Marsupial se deslocaram para as mesas de seus editores, que também são artistas. A própria Comix estava estabelecida na mesa dupla de Danilo Beyruth – de forma não-oficial, claro.

Muitas outras editoras independentes de material autoral ainda menores também realizaram o mesmo movimento. A única editora pequena, resistente, e presente desde o segundo ano da CCXP foi a Crás, do incansável e produtivo Thiago Spyked. Essas alterações não-oficiais e contra-establishment entram em choque com uma prática da CCXP que não imita os eventos gringos, onde editoras independentes têm direito a mesas – ainda que um pouco maiores e mais onerosas – dentro do Beco dos Artistas.

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Se por um lado esta prática vai contra as regras, mas as torna viáveis, ela também tem a chance de prejudicar e/ou auxiliar os artistas, ditos, puramente independentes, sem editoras. Apenas números concretos de vendas poderiam dizer. Ao mesmo tempo, no Artists Alley, os pequenos brasileiros “competem” com grandes estrangeiros cujas filas quilométricas podem fazer sombra às suas humildes mesinhas, impedindo o acesso e visualização dos quadrinhos pelos transeuntes. São facas de dois gumes.

Mas se os artistas badalados brasileiros e internacionais podem criar aglomerações em suas mesas, por que não permitir o mesmo para editoras independentes? O quanto  e como este tipo de “competição” pode ser benéfica para todos? Tudo leva a crer que a transformação de pequenas editoras em mesas de artistas na CCXP está se tornando um movimento natural, ainda que não-oficial do cenário – reclamarão comigo se eu disser mercado – de quadrinhos brasileiros.

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A crise econômica e editorial faz com que editoras independentes encontrem meios de escape fora do mercado convencional – mesmo do e-commerce, que é obliterado pela Amazon. Eventos, como a Comic Con Experience são uma oportunidade destas editoras encontrarem um público cativo – cativo mesmo, pois estão todos num só lugar – e potencial. É cada vez mais comum vermos diversas editoras menores fazendo torratorra de vendas em eventos como o Garage Sale da Mythos Editora. Ou ainda feiras como a que a Editora MINO promove que, inclusive, investiu forte no seu estande no Festival Internacional de Quadrinhos, o FIQ. Ou o Festival Guia dos Quadrinhos que tem despontado como alternativa para materiais usados e também como substituto da finada FestComix.

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Percebemos, então, levando em conta todos estes motivos que elenquei acima, que o abismo entre editoras mainstream e independentes – assim como outros abismos sociais e econômicos – nunca estiveram tão alargados e profundos como agora, desde o alastramento das editoras independentes de HQs. A Panini Comics continua reinando suprema em lojas, bancas, eventos, e a Amazon continua dominando o e-commerce com práticas tubarônicas e predatórias nunca vistas antes na história deste país.

Aquelas práticas comerciais e editoriais que giram nas órbitas da Panini e navegam as margens da Amazon, incluindo livrarias, comic shops, sebos precisam “se virar nos 30” para fazer florescer um cenário cada vez mais dependente de eventos como a CCXP, de larga escala de visibilidade e público. Então, nesta conjuntura, o Artists Alley da Comic Con Experience cumpre um papel crucial para o futuro do “cenário” dos quadrinhos feitos nos Brasil por brasileiros. Por isso, longa vida aos Artists Alley de todos os eventos. Longa vida à Comic Con Experience que acolhe esses artistas no seu “coração pulsante”.